• Artigo: Candidatura própria do PT favorece Eduardo Braide e Flávio Bolsonaro

    Por Marlon Botão, ex-secretário de Cultura de São Luís, marqueteiro e militante político há mais de 40 anos

    A defesa de uma candidatura própria do PT ao governo do Maranhão, nas atuais circunstâncias, precisa ser tratada com franqueza política. Não se trata de discutir o direito do partido de disputar eleições, mas de avaliar o cenário concreto. E, nesse cenário, a insistência em um nome próprio, sem densidade eleitoral e sem unidade interna, acaba funcionando, na prática, como parte de uma aliança velada com Eduardo Braide — o que é extremamente problemático para o campo progressista e para o projeto político liderado pelo presidente Lula no estado.

    O pré-candidato do PT não decolou. A menos de seis meses da eleição, não conseguiu se consolidar, não rompeu a barreira dos dois dígitos e não se apresentou como alternativa competitiva dentro da disputa. Em política, tempo e viabilidade importam — e, neste momento, esses elementos não estão presentes.

    O segundo ponto é ainda mais revelador. O próprio pré-candidato já sinalizou, publicamente, a possibilidade de composição com Braide, inclusive projetando cenários eleitorais em que o ex-prefeito aparece como protagonista em um eventual segundo turno. Ou seja, ao mesmo tempo em que se sustenta o discurso de candidatura própria, já se constrói, de forma indireta, uma ponte com quem representa o principal adversário do campo progressista no estado.

    O terceiro elemento, frequentemente ignorado, é a posição das lideranças históricas do PT no Maranhão. A maioria dos quadros que ajudaram a construir o partido no estado — e que ainda têm peso político e capacidade de articulação — não defende a candidatura própria neste momento. Ao contrário, avalia que o caminho mais consistente passa por uma aliança política mais ampla. Ignorar esse acúmulo político não é apenas um erro tático; é um fator adicional de divisão interna.

    Somados, esses elementos produzem um efeito claro: a candidatura própria já nasce fragilizada e tende a entrar na disputa em condição de derrota. Mais do que isso, tende a aprofundar a fragmentação do partido, dispersar forças e comprometer a construção de uma estratégia eleitoral mais consistente.

    E há um impacto ainda mais direto: o campo proporcional.

    Uma candidatura isolada, sem competitividade majoritária, reduz significativamente a capacidade do PT de eleger uma bancada forte. Ao contrário, em uma aliança política com o MDB e com o grupo liderado por Orleans Brandão, o partido teria condições reais de ampliar sua representação, com potencial para eleger pelo menos três deputados estaduais e dois deputados federais, além de preservar sua unidade interna. Mesmo com divergências pontuais, a maioria do partido tende a convergir para uma composição mais ampla — e é essa convergência que gera força eleitoral.

    A pergunta, portanto, é simples: a quem interessa a fragmentação do campo progressista no Maranhão?

    Não interessa ao PT. Não interessa ao presidente Lula. Não interessa às forças políticas que desejam manter o estado alinhado a uma agenda social, democrática e popular. Interessa, sobretudo, a Eduardo Braide.

    Braide tenta se apresentar como uma figura neutra, moderada, distante dos extremos. Mas sua trajetória administrativa em São Luís e sua movimentação política mostram uma prática muito mais alinhada à direita conservadora do que ao campo popular. Neste momento, sua estratégia é conveniente: estimula, ainda que indiretamente, a divisão do campo progressista enquanto mantém pontes abertas com setores conservadores que podem compor sua sustentação eleitoral.

    É uma relação política ambígua apenas na aparência. Braide não precisa declarar formalmente uma aliança para se beneficiar dela. Basta que o PT se divida, que o campo progressista se fragmente e que a eleição seja empurrada para um segundo turno em condições mais favoráveis ao ex-prefeito de São Luís.

    Por isso, a candidatura própria do PT, nas condições atuais, não pode ser tratada como gesto de afirmação partidária. Ela precisa ser vista pelo que efetivamente produz: enfraquecimento da frente alinhada a Lula no Maranhão e fortalecimento indireto de quem hoje representa o principal risco de deslocamento do estado para o campo conservador.

    A eleição de 2026 ganhou uma identidade histórica muito clara. O Maranhão terá de escolher se permanece integrado a um projeto nacional liderado por Lula, com foco em inclusão social, combate às desigualdades, fortalecimento da educação, oportunidades para os mais pobres e desenvolvimento com responsabilidade pública; ou se abre caminho para um projeto mais próximo da direita conservadora, sem compromisso consistente com essas bandeiras.

    Essa reflexão não nasce de paixão individual, nem de conveniência circunstancial. Nasce de uma trajetória de vida no campo progressista, de quem sempre compreendeu a política como instrumento coletivo de transformação social. É desse lugar que se impõe dizer: uma candidatura própria do PT, neste momento, pode até parecer afirmação de autonomia, mas tende a funcionar como mais uma faceta de uma operação política que beneficia Eduardo Braide.

    E, se isso acontecer, o custo não será apenas eleitoral. Será histórico.

    Porque, em uma eleição marcada pela disputa entre dois projetos de estado, neutralidade não existe. Dividir o campo progressista, hoje, é facilitar o caminho da direita. E facilitar o caminho da direita é trabalhar, mesmo sem admitir, contra o projeto político que o PT ajudou a construir no Brasil e que o presidente Lula precisa fortalecer também no Maranhão.

    Fonte: O Informante

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